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OCEANO DE ESPERANÇA

Numa semana, corais saudáveis e vibrantes ficaram brancos

Numa semana, corais saudáveis e vibrantes ficaram brancos.
Uma jovem bióloga inglesa está numa corrida para salvar a Grande Barreira de Coral na Austrália. Será que vai a tempo?

Por Bruno Lobo, Visão
Publicado em fevereiro de 2020Tempo de leitura: 2min 16s

Em 2016, Emma Camp aterrava pela primeira vez em Sydney. Na bagagem levava um doutoramento em Biologia Marinha, uma bolsa de investigação atribuída pelo governo australiano e um plano para salvar os corais. Ainda não tinha completado 30 anos, mas “para uma bióloga de corais, não havia melhor sítio no mundo para trabalhar”, diz-nos agora, aos 32, a partir do seu laboratório na University of Technology Sydney.

Infelizmente, mal tinha chegado à Austrália quando começou “a grande descoloração”, um fenómeno provocado por um aumento na temperatura das águas do mar que afetou praticamente todas as colónias de corais do mundo. O evento repetiu-se no ano seguinte e, para se perceber a dimensão dos danos, apenas 10% a 40% dos recifes sobreviveram intactos. Da segunda vez, Camp assistiu, impotente, a um cenário devastador: “No espaço de uma semana, corais saudáveis, vibrantes e cheios de cor ficaram completamente brancos”. Já tinham sucedido eventos semelhantes, mas nunca com esta magnitude. A Grande Barreira de Coral da Austrália (GBC) perdeu um terço da sua superfície, um terço de uma área equivalente à Itália.

“Muita gente pensa erradamente que os corais são plantas, quando, na verdade são animais, embora compostos também por microalgas que vivem na pele. As microalgas são responsáveis por fornecer a maioria dos nutrientes, através da fotossíntese, mas os corais também se alimentam de outras algas e de pequenos peixes”, explica. Por isso, quando os vossos filhos perguntarem qual é o maior animal da terra não lhes respondam que é a baleia-azul ou o elefante, mas a Grande Barreira de Coral. É, de facto, o maior organismo vivo, composto por dois mil e muitos recifes individuais.

Mas a GBC, tal como todos os outros corais do mundo, está perigosamente ameaçada pelas alterações climáticas. Águas mais quentes, com menos oxigénio, e mais ácidas provocam stresse aos corais que expulsam as algas coloridas do seu organismo, perdendo a cor. Como as algas são a principal fonte de energia, o coral morre em poucos dias.

Uma catástrofe de consequências inimagináveis para o planeta, e, no entanto, os cientistas sabem que as ocorrências de descoloração vão repetir-se, porventura “com maior frequência e intensidade”. “Uma parte importante da comunidade científica acredita mesmo que, em 2030, todos os corais possam já ter morrido”.

Mas Emma Camp quer ter uma palavra a dizer sobre o assunto. Ainda durante o doutoramento, descobriu que junto dos mangais, em locais como a Nova Caledónia, existem colónias que sobrevivem e prosperam em ambientes muito mais hostis. “Porque não olhar para a natureza e tentar perceber como esses corais se adaptaram e a que custo?”, pensou. Na expectativa de descobrir como funciona essa resiliência transplantaram corais destes mangais para a Grande Barreira, e vice-versa e estão a analisar como as espécies evoluem nos novos ambientes: “A ideia é, obviamente, identificar as melhores para poder replantar os recifes caso seja necessário”.

O seu trabalho tem sido reconhecido pela comunidade científica, como aconteceu recentemente ao ser eleita Associate Laureus, nos Rolex Awards for Enterprise. A iniciativa decorreu em Washington DC, em paralelo com o festival Explorers, da National Geographic. Antes, já tinha sido eleita Jovem Líder para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, discursando perante uma plateia de líderes mundiais: “Nem toda a gente consegue perceber a importância de perder um ecossistema como um recife, e estes prémios fornecem uma plataforma para o comunicar, não só aos líderes, mas ao mundo”.

Porque ainda hoje Emma Camp se lembra bem do dia em que meteu a cabeça dentro de água e viu, pela primeira vez, “aquela cidade subaquática, cheia de cor e vida”. Sendo inglesa, “não tinha grande contacto com recifes de coral, mas tive a sorte de a minha família ter ido passar umas férias às Caraíbas quando tinha 6 anos”. Privilégio que ela se esforça por passar às próximas gerações.

Artigo publicado na revista VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito do projeto Oceano de Esperança, para dar voz a pessoas e organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis.

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